quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Ao futuro!



Hoje customizamos carros. Amanhã, a chave do negócio será a customização dos serviços de mobilidade


O consumidor poderá ter uma assinatura de algum fabricante e escolher o carro que quiser para determinada ocasião


No mundo do automóvel, a palavra customização (do inglês custom, personalizado) está fortemente associada a acessórios que deixam o carro ao gosto do consumidor. Existe até uma feira anual gigantesca em Las Vegas sobre o tema, o SEMA Show. Com acessórios de todos os tipos, o cliente pode deixar o carro mais esportivo, mais off-road, mais confortável, mais conectado, mais chamativo, ou até transformá-lo numa caixa acústica, para quem gosta de música. Mas num futuro próximo, a customização vai superar as barreiras do carro próprio e vai migrar para os serviços de mobilidade.

 Cada vez mais, o carro próprio customizado será uma exótica exceção. E o uso do carro de forma customizada será o segredo para quem ainda quiser fazer dinheiro no setor automotivo. O lucro das empresas será medido por quilômetros rodados e serviços prestados para a mobilidade , não mais por carros vendidos. E as feiras de negócios (Business to Business) serão mais importantes do que os tradicionais Salões do Automóvel (Business to Consumer).

 Lynk 01: SUV chinês vem com base da Volvo e pode ser compartilhado por meio de aplicativo de celular

Em resumo, o futuro pertence a quem criar o Netflix dos carros, o Spotfy automotivo, o Airbnb sobre rodas, o Booking.com dos viajantes motorizados. Se o Netflix revolucionou o consumo de filmes e seriados, Deezer e Spotfy mudaram a forma de consumir música e aplicativos de viagem quebraram as agências de turismo, o mesmo está para acontecer na forma como nos relacionamos com a mobilidade individual. Ele será totalmente customizada, personalizada.

E o que seria essa customização da mobilidade? Simples. O cliente só vai ter um carro próprio se fizer muita questão ou tiver muita necessidade. Mas se não quiser, poderá usar serviços que lhe propiciem ter um carro onde e quando quiser. Pelo tempo que for necessário. E o tipo de carro que for mais adequado a cada ocasião. “Mas isso já não existe com a possibilidade de aluguel de carro?”, você pode me perguntar. Em termos. O que estou propondo seria um avanço enorme no conceito de aluguel de carro, hoje um serviço caro, com limitações de escolha do modelo, de onde retirar, de onde devolver.

 Newspress/Divulgação
O SEMA Show, que acontece em Las Vegas, reúne entusiastas da área de customização, mobilidade e acessórios

O que o futuro reserva é a livre escolha do cliente. Fulano pode querer andar de transporte público e aplicativos durante a semana, mas ter um carro disponível apenas em finais de semana. E o tipo de carro pode variar conforme a ocasião – de um casamento bacana em sua cidade a uma viagem que inclua trechos de terra. O carro necessário seria entregue e devolvido nos locais e horários de sua escolha. Até na porta da sua casa, dependendo do seu plano personalizado.

Ciclano pode querer usar um carro compacto e econômico apenas para os dias de semana. Beltrano pode querer carros específicos apenas para períodos de descanso (feriados e férias). Fulana pode querer um carro com motorista nos dias de semana, para ir trabalhando no trânsito, mas o mesmo carro sem motorista para os finais de semana. Já Herculana pode querer um carro esperando por ela no aeroporto a cada viagem que fizer, não importa o país. O que fará pouco sentido é ter um carro próprio que passa quase todo o dia estacionado.

As demandas serão as mais variadas. Mas quem oferecerá um serviço tão customizado? Qualquer empresa do mundo automotivo que quiser sobreviver no futuro. Estou falando se uma espécie de serviço de assinatura de automóvel. Mobilidade sob demanda. Ao mesmo tempo uma ameaça e uma oportunidade para marcas generalistas e especialistas.

 Quer será a primeira empresa a criar uma espécie de Carflix? Trata-se de um modelo de negócio que tem futuro

Um cliente poderia comprar um serviço de assinatura, digamos, da Chevrolet (só para citar a atual líder de vendas), com vários pacotes negociáveis à sua escolha. Tendo o tipo de carro que quiser do portfólio da marca, onde, quando e por quanto tempo for necessário. Com ou sem motorista. Já uma marca especialista como a Jeep ou a Land Rover poderia ter planos para clientes em locais onde um 4x4 se faz necessário.

Futuro brilhante
Mas os serviços de mobilidade customizada serão disputados não apenas pelas montadoras que sobreviverem nesse futuro disruptivo, que incluirá carros elétricos, híbridos e com diferentes graus de condução autônoma. Grandes locadoras de hoje poderão se transformar em grandes plataformas de serviço de mobilidade customizada. Até empresas como o Uber e afins poderão entrar nesse segmento. Ou mesmo gigantes do mundo online, como Airbnb, Decolar, Submarino... Isso sem falar de novos entrantes, por que não? Certos fabricantes de carros poderão optar apenas por fornecer produtos a empresas mais especializadas nessa complexa logística de satisfazer às necessidades pontuais de cada consumidor.

E as concessionárias, como ficam nessa história? Elas serão um mix de administradora de frotas e de locadora de veículos. Terão mais assistentes de serviços personalizados do que vendedores. Não terão mais áreas para vender financiamentos ou seguros, e sim para oferecer planos de mobilidade. Terão mais entregadores/buscadores de carros do que mecânicos. Aliás, a assistência técnica das frotas será terceirizada, não fará parte da expertise desses dealers do futuro.

O fato é que, em algumas décadas, ter um carro próprio será um luxo ou um hobby. Para competir com as várias modalidades de transporte público, aplicativos (sucessores dos táxis), serviços de compartilhamento e frotas automatizadas, só mesmo oferecendo as facilidades da mobilidade customizada.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Nova realidade de consumo



O mundo do automóvel precisa se livrar do machismo para evoluir e sobreviver na era pós-digital


Divulgação
Entre as mulheres mais importantes do setor automotivo, Mary Barra comanda a General Motors desde 2014

Eu sei, o tema é delicado, mas precisamos falar sobre o machismo em tudo que envolve o universo automotivo. Esta coluna sempre defendeu a necessidade de uma reinvenção das montadoras e das concessionárias, de todo o modelo de negócio na era pós-digital. Essa virada só será possível com a presença de mulheres mais forte nos cargos de comando de todas as áreas do mundo do automóvel. Mas, para isso, o modelo mental machista deste setor precisa mudar radicalmente.


Por que é tão importante ter mulheres com poder decisório nessa indústria? Ora, elas são praticamente a metade do público comprador de carro, e o porcentual seria ainda maior se a cultura machista não estivesse tão arraigada. Mas há um motivo ainda mais fundamental, como defendeu o presidente do Grupo Abril, Walter Longo, durante sua palestra de abertura no fórum Tendências da revista Quatro Rodas: mulheres são mais digitais, enquanto os homens são mais analógicos. Isso significa que elas possuem os atributos que o setor precisa para não sucumbir nessa nova economia que está em franca revolução.

Quais seriam esses atributos? Por razões antropológicas, mulheres são mais multifuncionais, colaborativas e intuitivas. E são menos centralizadoras, individualistas e hierarquizadas. Trabalham melhor em equipe, têm mais network e senso de comunidade, são mais antenadas que os homens. Tudo que a economia digital exige, as mulheres têm mais condições de oferecer num papel de liderança: foco na experiência, nos serviços, no atendimento, no encantamento, no engajamento. O momento do mercado é mais de emoção, intuição, sensação e colaboração, e menos de razão, previsibilidade, competição e precisão (especialidades dos homens desde os tempos das cavernas).

 Divulgação
Ana Theresa Borsari é a a principal responsável pelo processo de reestruturação da Peugeot no Brasil

Mulheres começaram a assumir postos-chave em algumas montadoras, mas ainda são exceção, e por isso chamam tanta atenção – e até atraem certo preconceito. Há quase quatro anos, Mary Barra comanda com sucesso a ressureição da GM após a empresa ter sido salva da falência pelo governo americano (ela é a CEO global do grupo). No Brasil, Ana Theresa Borsari luta há dois anos para recolocar nos trilhos a operação da Peugeot. Em outras áreas industriais, comerciais e governamentais, há muito mais mulheres em posições de liderança do que na indústria automobilística.

Pesquisas recentes feitas com mulheres que trabalham no setor automotivo (nos EUA pela Automotive News e no Brasil pela Automotive Business) apresentaram resultados muito parecidos: falta de mulheres em postos-chave, salários inferiores, falta de reconhecimento e oportunidade, tarefas menos relevantes e muito preconceito. A pesquisa americana (http://www.autonews.com/section/projectxx) foi ainda mais a fundo na questão e mostrou casos de assédio moral e sexual contra mulheres em empresas automotivas e concessionárias, além de uma cultura machista que repele mulheres e impede a ascensão das que insistem em trabalhar nessa indústria.

Evolução?
 Reprodução/Newspress
Salões do Automóvel recebem criticas quando usam belas garotas para chamar atenção do público nos estandes

O machismo no setor automotivo vai muito além de preconceitos contra as “Donas Marias” no trânsito, ou o surrado “vai pilotar fogão”. Vai além dos calendários com mulheres nuas em borracharias e das modelos em trajes sumários no Salão do Automóvel. Ele está na expectativa que o dono de um carrão tem de fazer sucesso com as mulheres na porta da balada. Nos caubóis a bordo de picaponas que brincam de laçar mulheres nas festas de peões. No dono de concessionária que só seleciona vendedoras se elas forem “bonitonas”.No mecânico que quer arrancar mais dinheiro da “madame que não entende nada de carro”. No taxista que faz gracejos (ou coisa pior) para a passageira. Nos jornalistas automotivos e assessores de imprensa que menosprezam (ou assediam) suas colegas do sexo oposto. No organizador de eventos que escolhe moças do “livro rosa” para atender diretores e clientes vips. No executivo de montadora que leva parceiros comerciais e jornalistas a prostíbulos após uma reunião de trabalho, às vezes sob olhares assustados de colegas mulheres.


Estou nesse setor há quase três décadas e já presenciei muitas situações humilhantes para mulheres. Sei que a condição melhorou muito, mas ainda é um universo refratário ao sexo feminino, num momento em que a presença delas é necessária por questões não só éticas e morais, mas para o próprio futuro do negócio. O sexismo não está no repertório das novas e futuras gerações de consumidores. 

O mundo evoluiu, e continua a evoluir em alta velocidade. Velocidade que, infelizmente, vem faltando nas mudanças do mundo do automóvel, salvo raras exceções. Não estou pregando que os homens, com seu jeito se ser, não são mais importantes para o setor. Longe disso. Mas a presença feminina é bem-vinda e fundamental, sobretudo em funções capazes de definir os rumos da indústria e do comércio automotivo.

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